Artigo GALOPE n. 1 Medicina Laboratorial de Equinos

Diagnóstico Laboratorial na Clínica de Equídeos

Dr. Luiz Eduardo Ristow
Médico Veterinário – MMV
TECSA Laboratórios

Nesta coluna discutiremos algumas enfermidades que acometem os Equídeos e seus respectivos diagnósticos. A Medicina Laboratorial Veterinária obteve enorme progresso nos últimos quatro anos, e por esta razão passou a ser a melhor ferramenta de apoio ao diagnóstico para o Clínico especialista em Equinos. Com os atuais custos de medicamentos e vacinas, não é aceitável a utilização indiscriminada destes produtos sem antes uma certeza da etiologia da enfermidade e de sua resistência a determinadas drogas. Muitas vezes “atirar no escuro”, deixando-se de utilizar a ferramenta do diagnóstico correto e preciso, pode resultar em gastos de dinheiro e tempo desnecessários e um grande comprometimento do animal.

Abaixo seguem algumas análises laboratoriais que, quando utilizadas de forma consciente, servirão de excelente suporte ao Veterinário para uma prescrição eficaz.

» Babesiose ou Piroplasmose
A Babesiose equina, também conhecida como piroplasmose ou nutaliose equina, é uma doença produzida por protozoários (Babesia equi e Babesia caballi), transmitida por carrapatos e que afeta equinos, muares e zebras. Os animais infectados se tornam geralmente portadores crônicos e fontes de infecção por longos períodos.
A B.equi e a B.caballi frequentemente estão associadas, já que se utilizam do mesmo vetor. Ambas se distribuem largamente em áreas tropicais e subtropicais, mas a B.equi
tem maior prevalência.

Diagnóstico Laboratorial:

Análise: Pesquisa de Babesia
Material: Sangue Total com Anticoagulante
Método: Método do Percoll

Também é aconselhável a realização de um Hemograma equino, pois achados deste exame podem ser indicativos de infecção por Babesia.


» Leptospirose Equina

Na prática veterinária, volta e meia nos deparamos com um criatório de cavalos em que o índice de abortos está um tanto acima da média. Eliminando-se o aborto equino a vírus como agente causador (seja através de exames de laboratório, seja através da vacinação específica), outro "vilão" muito comum em nosso país passa a ser a infecção por Leptospira sp. Esta bactéria pode ser transmitida tanto de um cavalo para outro como através de vetores, dos quais o rato é o mais comum em nosso país. Já que a urina é grande fonte de contágio desta doença, sua ocorrência pode estar estritamente relacionada à presença de roedores no depósito de ração, especialmente se o concentrado for misturado ou batido no próprio estabelecimento de criação, e se as condições de armazenamento dos grãos forem deficientes quanto a higiene e controle de roedores.
A leptospirose é doença especialmente insidiosa por poder existir em forma crônica, com portadores assintomáticos ou então revelando apenas sintomas periódicos (tal como o aborto das éguas). Dependendo da variedade da bactéria Leptospira, muitos cavalos afetados se tornam portadores para o resto da vida, podendo contaminar outros animais. Outro grave problema é que a ocorrência de cegueira recorrente (panoftalmia ou uveíte periódica) está relacionada, provavelmente na maioria dos casos, à leptospirose. Esta doença de fundo autoimune tem interrompido a carreira de muitos cavalos de esporte.
Até o momento, por não existir tratamento totalmente eficaz contra a leptospirose (principalmente em sua forma ocular) nem vacinas, a prevenção através de um manejo sanitário e higiênico correto é muito importante; sua não-adoção pode comprometer todo um plantel.

Diagnóstico Laboratorial:

Análise: Pesquisa de Leptospira
Método: MSAR
Material: Soro

Também ocorre muito comumente uma disfunção renal, bem como icterícia e disfunção hepática. Embora achados de cirrose ou outros danos hepáticos em consequência de leptospirose não sejam considerados comuns. Neste caso é aconselhável solicitar análises para:
- Perfil Hepático - Bilirrubina; Proteínas Totais; TGP; Fosfatase Alcalina
- Perfil Renal - Ureia; Creatinina


» Dermatomicoses

As dermatomicoses são afecções da pele causadas por fungos da família dos dermatófitos. Essas afecções causam lesões características, e que podem ser transmitidas a outros indivíduos. No equino elas são causadas pelos fungos do gênero Trychophyton – T. mentagrophyte, T. crinacei e T. equinum.
Os dermatófitos são fungos que infectam somente a epiderme e anexos (pêlos, unhas), ou seja, estruturas que possuem queratina abundante. O fungo existe no solo e nas plantas, bem como em arreios e equipamentos infectados. A transmissão se dá por contato direto ou indireto, sendo prevalecente nos meses quentes e úmidos ou chuvosos.
A infecção por um dermatófito pode resultar em um estado de hipersensibilidade a um extrato do dermatófito. Nos equinos, cabeça e cauda são os locais mais frequentes. As dermatomicoses podem ser transmitidas de um animal a outro, ou a humanos, por contato direto ou indireto. O quadro clínico apresenta lesões avermelhadas e descamativas, provocando processo inflamatório agudo, com ou sem prurido, mas geralmente por tempo prolongado.

Diagnóstico laboratorial:

Análise: Cultura para fungos e Pesquisa de Fungos
Método: Cultura e Microscopia
Material : Raspado do local da lesão


» Hepatite Equina

A enfermidade hepática no equino tem sido associada ou causada por uma grande variedade de agentes tóxicos como infecciosos, imunológicos, neoplásicos, congênitos e nutritivos. As duas formas mais bem definidas de enfermidades hepáticas observadas no cavalo são a Hepatite aguda difusa, cuja causa é provavelmente um vírus associado ao soro sanguíneo e a Hepatopatia tóxica causada pela ingestão de alcalóides pirrolizidinicos.
A Hepatite necrosante causada pela infecção de Bacillus piliformes (enfermidade de Tyzzer) raramente ocorre, porém quando presente é devastadora.
Com exceção da Enfermidade de Tyzzer, a qual segue um curso superagudo com poucos sinais premonitores, as manifestações clínicas de enfermidade hepática são bastante similares sem importar o agente causante, com somente algumas variações no tempo de aparecimento, severidade e resultado. Para um correto Diagnóstico, um histórico clínico completo deve incluir informação sobre o manejo, trabalho, alimentação, profilaxia e enfermidades anteriores que possam haver afetado o fígado. Especial atenção deve ser prestada aos hábitos de alimentação, qualidade da ração e fenos. Detalhes sobre as impressões dos proprietários a respeito da conduta do animal, a data provável em que os primeiros sinais se tornaram evidentes e a duração do problema. Se for possível, a área onde o animal mora, incluindo os piquetes, deverá ser examinada pelo veterinário.
O exame físico deve ser completo e incluir uma observação detalhada das membranas mucosas, pele e sistema nervoso. Nenhum exame de laboratório é patognomônico, o que torna necessário que sejam feitos vários testes para definir claramente o tipo de mudanças patológicas que estão ocorrendo.

Diagnóstico Laboratorial:

Análises recomendadas:
Hemograma Completo
- Anemia é comum nos casos crônicos e anoréxicos;
Leucocitose está comumente presente na forma de Neutrofilia, Eosinopenia e linfopeniavariável.

Dosagem de Proteínas plasmáticas - Ocorre baixa das proteinas totais, principalmente por causa da baixa de albumina. Pode haver, porém, compensação devido ao aumento das frações globulínicas.

Dosagem de Bilirrubinas – Total, Direta e Indireta - No cavalo, a bilirrubina indireta aumenta tanto na icterícia hepática como na hemolítica, embora a bilirrubina direta não aumente significativamente na icterícia hepática. Consideramos como fator de enfermidade hepática quando a quantidade de bilirrubina direta iguala ou excede 1/5 da quantidade da bilirrubina total.

Dosagem das Transaminases – TGO e TGP – A TGO está presente em muitos tecidos (fígado, coração e músculos esqueléticos). Libera-se quando existe dano celular. Alcança seus níveis mais altos na hepatite necrosante, traumas músculo-esqueléticos e danos miocardiais. Elevações significantes podem ocorrer com danos intestinais ou infartos no cérebro, pulmão e rim. Eleva-se falsamente após o uso da Prostaglandinas, Penicilina, Eritromicina e Opiatos. TGO é uma enzima de elevação lenta, levando, para isso, de 18 a 48 horas e permanecendo de 7 a 14 dias. Nossas quantidades normais indicam de 226-366 IU/L e nós consideramos uma elevação de 25% como significativa. Já a TGP, que é extremamente útil nos humanos e caninos como hepato-específica, infelizmente no cavalo existe pouca quantidade delas (3.4-23.0 IU/L) e não é possível obter elevações significantes com valor de diagnóstico no soro de equinos com problemas hepáticos.

Dosagem de Desidrogenase Lática (LDH) - No equino esta enzima é bastante hepato-específica. Normalmente seus valores variam de 1.9-5.8IU/L.

Dosagem de Fostafase Alcalina - Elevações desta enzima são observadas em alterações dos tecidos ósseos e ocorrem devido ao incremento da atividade dos Osteoblastos, os quais são ricos em Fosfatase. Também se elevam em casos de enfermidades hepáticas e dos condutos biliares, assim como normalmente em animais jovens em crescimento rápido. Elevações significantes são apreciadas em Icterícia Obstrutiva. Quantidades inferiores às normais são apreciáveis em casos de enfermidades hepatocelulares. Valores normais: 143-395 IU/L.

Tempo de Protrombina - Mudanças no tempo de protombina ocorrem cedo em casos de enfermidade hepática. O tempo normal em cavalos é de 9-12 segundos. Durante sua avaliação sempre deverá usar-se um controle para compensar as variáveis presentes.

Biópsias Hepáticas / Histopatologia - Esta técnica é muito útil para diagnóstico. É segura, fácil de realizar e oferece valiosa informação para o diagnóstico e prognóstico do caso. Em hepatite aguda difusa (origem sérica), o fígado pode se apresentar em tamanho normal, maior ou diminuído. Pode aparecer amarelado ou esverdeado e com consistência friável. As mudanças histológicas variam de necrose centro-lobular moderada a difusa degeneração e necrose,com extensiva perda de Hepatócitos, vacualização lipídica e degeneração nuclear. Acúmulos de Histiócitos, Linfócitos e células plasmáticas são frequentemente apreciáveis nas áreas portais. No caso de Hepatopatia tóxica são encontradas mudanças típicas de fibrose portal, hiperplasia dos condutos biliares e presença de Hepatócitos Megalocíticos principalmente nas periferias lobulares. O fígado aparece de tamanho normal, duro e fibroso.

Um diagnóstico preciso e seguro é o melhor caminho para a terapêutica eficaz e rápida. Nos próximos números apresentaremos mais casos de Medicina Laboratorial em Equídeos. Acompanhe.

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