Palavra do Sanitarista 02 - Quarentenário em suínos - Revisão Bibliográfica

Palavra do Sanitarista 02
Quarentenário em suínos - Revisão Bibliográfica

Dr Luiz Eduardo Ristow

Segurança do seu patrimônio: quarentenário

Do grande capital investido em um empreendimento de granja suinícola, o rebanho corresponde a grande parte, seja de animais matrizes e reprodutores ou mesmo de animais de produção. Por isso a suinocultura exige que a prevenção seja a maior e mais importante ferramenta de atuação sanitária na granja. Impedir a entrada de determinados patógenos e manter uma boa estabilidade sanitária e imunológica do rebanho pode ser a diferença entre o lucro e o fracasso da atividade, e por isso medidas de biossegurança estão sendo cada vez mais adotadas nas granjas brasileiras. Adotar biossegurança significa o desenvolvimento e implementação de normas rígidas que terão a função de proteger o rebanho contra a introdução de qualquer tipo de agente infeccioso, seja ele vírus, bactéria, fungo e/ou parasita, bem como manter a sanidade e aumentar a resistência dos animais aos desafios. Um programa efetivo de biosseguridade exige o desenvolvimento de vários itens e aspectos técnicos como restrição de visitas, plano de desinfecção, plano de vacinação, entre outros. Mas dentre eles se destaca também o uso de quarentena. A quarentena consiste em manter isolados e sob observação animais recém-adquiridos, aparentemente sadios, mas que potencialmente podem ser portadores e difusores de diferentes agentes patogênicos.

Quarentenário

As granjas atualmente necessitam comprar marrãs-matrizes e reprodutores constantemente, pois estes representam o material genético de reposição e melhoramento necessário para o alcance de níveis de produtividade satisfatórios. Esta aquisição deve ser criteriosa e responsável, pois além dos aspectos genéticos se faz preponderante a segurança sanitária. A reposição deve ser feita de animais oriundos de granjas sanitariamente controladas, conforme vigente em lei e que apresentem certificado de garantia. O histórico de mercado do Fornecedor de Genética e sua postura frente a situações anteriores é um excelente indicador do teor de idoneidade e garantias que se podem esperar. Deve-se ter em mente sempre que, independente da origem, todos os animais adquiridos devem ser considerados suspeitos. Todos os reprodutores de reposição devem, necessariamente, passar por um período de quarentena antes de serem introduzidos na granja e terem contato direto ou indireto com os demais animais do rebanho, patrimônio da granja.

A quarentena deve manter o animal isolado por um período, não necessariamente de 40 dias como sugere o nome, mas que deve ser suficiente para cobrir o tempo de incubação daquelas doenças cuja presença está se tentando monitorar, e ainda ser economicamente viável. O período de incubação das doenças dos suínos é bastante variável, tendo as principais um período de incubação de duas a dez semanas (tabela 1). Observa-se na literatura que o período sugerido para a realização da quarentena é tema controvertido e diferente entre os autores. De acordo com alguns autores seis semanas seria o período ideal, suficiente para atender o período de incubação de várias doenças, e muito importante: possível de se realizar na prática.

O esquema que adotamos em diversas granjas que auxiliamos tem sido o de manter os animais recém-adquiridos por no mínimo 45 dias (ou ideal de 60 dias) no quarentenário. Esses animais sempre deverão ser provenientes de granjas certificadas. Na quarentena, faz-se coleta de sangue para exames sorológicos para Pleuropneumonia (App), Mycoplasma e até mesmo Doença de Aujezsky, dentre outros. Optou-se em muitos empreendimentos suinícolas por repor animais apenas três vezes ao ano, pois consideram que a medida diminui o risco de contaminação.

Medidas de biossegurança e higiene em inseminação artificial incluem o quarentenário como um procedimento obrigatório para reduzir o risco de problemas sanitários na central de inseminação artificial com a introdução de novos machos. É sugerido que o quarentenário deve ser isolado e distante da central, atender a normas rígidas de acesso de pessoas e veículos, ser atendido por pessoal exclusivo e operar estritamente no sistema todos-dentro/todos-fora. Deve-se fazer sorologia no início para averiguar o status dos animais recebidos e no final do período de quarentena para verificar se os animais recebidos soroconverteram, ou seja, desenvolveram anticorpos contra os microrganismos que vieram carregando.

Segundo o Institut Techinique du Porc (ITP), na França, a quarentena é um ponto essencial de proteção para as granjas de produção. O ITP afirma que os primeiros 15 dias de quarentena consistem da fase de observação dos animais, que devem estar totalmente isolados do resto da granja. Algumas enfermidades podem ser observadas nesse período. Posteriormente, por 25 a 30 dias os animais devem, gradativamente, se acostumar aos microrganismos existentes na granja por isso a quarentena deve se localizar na periferia da granja, do lado oposto dos ventos dominantes, e é sugerida a introdução de uma matriz adulta na baia de quarentena para cumprir este objetivo.

Alguns pontos devem ser observados durante a permanência dos animais no quarentenário: o exame clínico completo deve ser feito por médico veterinário na chegada dos animais; os lotes devem ser inspecionados observando a ocorrência de sinais clínicos, pelo menos duas vezes por dia nos 15 primeiros dias e uma vez ao dia no período subsequente, sendo recomendável registrar/anotar os sinais clínicos (incidência de tosse, espirro e mesmo fezes moles ou diarreicas). Deverá ser coletado sangue para análises sorológicas como recomendado anteriormente. Caso algum sinal clínico seja detectado ou algum exame sorológico dê resultado positivo, o médico veterinário deve decidir a atitude a ser tomada.

Alguns empreedimentos adotam que os animais, quando chegam, devem ser vermifugados e receber tratamento conta sarna sarcóptica, mas antibióticos e promotores que podem mascarar as doenças bacterianas são evitados. Os animais deverão ser vacinados contra doenças endêmicas existentes na granja, assim como receber vacinação de rotina na propriedade, tomando o cuidado de evitar vacinas que possam confundir a interpretação dos resultados sorológicos.

Deve-se providenciar vestiário com chuveiros diferenciados para acesso ao quarentenário, assim como uniformes e botas exclusivos do quarentenário. Os funcionários da quarentena não podem ser os mesmos que trabalham nos demais setores da granja, nem mesmo na fábrica de rações que atende a granja.

Apesar de aumentar a segurança, a quarentena não garante a total eliminação do risco de introdução de doenças no sistema de produção. Um plano completo de biossegurança é o recomendável, e seu custo é sempre inferior às perdas decorrentes de surtos e da instalação de doenças nas granjas.

Conclusões

• Animais introduzidos na granja sempre devem ser considerados suspeitos até que se prove o contrário.
• Devem ser evitados lotes compostos, ou seja, diferentes granjas de origem (mesmo sendo da mesma genética) para compor um lote de reposição.
• Para alcançar seus objetivos, critérios rígidos devem ser adotados e seguidos no Quarentenário.
• O período de permanência dos animais na quarentena é variável entre os autores, sendo nossa sugestão um período entre cinco dias e 60 dias. Quanto menor o período, mais rígidos devem ser os controles e exames clínicos e laboratoriais.
• A coleta de amostras para verificação do status sanitário dos animais deve ocorrer nos primeiros dias da chegada dos animais (no máximo três) e entre sete a dez dias antes da data prevista de entrada dos animais na granja.
• A definição dos exames (sorológicos, bacteriológicos e outros) e amostragem deve ser definida por veterinário capacitado e atendendo aspectos epidemiológicos e interesses da granja.
• O uso de quarentenário na suinocultura reduz consideravelmente o risco de introdução de doenças infecto-contagiosas nas granjas.

Bons Negócios e Boa Saúde!
 

Tabela 3 - Número de amostras a testar para se ter 90% de confiabilidade que a doença será detectada se presente em/ou acima dos 5 níveis de incidência ou contaminação.
  Período de Incubação Período como Portador Possíveis ações durante a Quarentena
Doenças virais
TGE 1-4 dias 4 meses Sorologia (pesquisa  do vírus)
Doença de Aujezsky 3-8 dias 2 anos Sorologia (pesquisa  do vírus)
PRRS 2-5 dias > 4 meses Sorologia (pesquisa  do vírus)
Peste Suína 5-10 dias meses Sorologia (pesquisa  do vírus)
PSA 4-19 dias meses Sorologia (pesquisa  do vírus)
Parvovirose 4-14 dias longo Sorologia. Vacinação.
Febre Aftosa 2-5 dias suíno não é portador Sorologia (pesquisa  do vírus)
Doença vesicular 2-5 dias meses Sorologia (pesquisa  do vírus)
Influenza 1-3 dias 1 mês Sorologia (pesquisa  do vírus)
Doenças Bacterianas
Erisipela 1-7 dias meses Vacinação. Tratamento
Tuberculose 14-28 dias não Tuberculinização
Leptospirose 7-10 dias > 6 meses Sorologia, vacinação, tratamento
Brucelose 1-2 semanas longo Sorologia
Rinite Atrófica (P) 1-2 meses 12 meses Isolamento da Pasteurella multocida A/D toxigênicas
Disenteria Suína 1-3 semanas 3 meses Pesquisa da bactéria
Ileíte 1-2 semanas ??? Sorologia (pesquisa  da bactéria)
Salmonelose 2-5 dias 4 meses Isolamento da bactéria
Meningite 1-3 meses 12 meses Pesquisa da bactéria, Vacinação

Estreptocóccica
Mh-Micoplasma
Hyopneumoniae

2-10 semanas 6 meses Sorologia (pesquisa  da bactéria)
App- Actinobacillus
Pleuropneumonaie
1-3 dias 2-3 meses Sorologia (pesquisa  da bactéria)
Doenças Parasitárias
Sarna 1-4 meses longo Exame de Raspado, Tratamento
Parasitas internos variável longo Exame de fezes, Tratamento

 

Legenda:
TGE= Gastroenterite Transmissível; PRRS= Síndrome Reprodutiva e Respiratória dos suínos ou PRRS; PSC= Peste Suína Clássica; PSA= Peste Suína Africana; Rinite Atrófica(P) = Rinite Atrófica Progressiva.

Observação:
Algumas enfermidades acima se fazem necessárias para granjas comerciais, outras para granjas de alto valor sanitário e muitas para animais importados. Consulte sempre um veterinário.

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